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Tocando Agora:

Quando a Guitarra Invadiu Tudo

Da Marcha contra a Guitarra Elétrica à Xuxa, Sandra e ao Trio Elétrico

Quando a Guitarra Invadiu Tudo
Quando a Guitarra Invadiu Tudo (Foto: Reprodução)

Há instrumentos que acompanham a história da música.

E há instrumentos que parecem ter decidido **invadir a história da humanidade inteira**.

A guitarra elétrica pertence à segunda categoria.

Ela está no blues, no jazz, no country, no rock, no metal, no funk, no reggae, no ska, na disco music, no pop, na música brasileira, no carnaval, na MPB e, para desespero de quem tentou fugir dela, até naquele pop oitentista que você jurava que não tinha absolutamente nada de rock.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo certa manhã.

Depois do ritual habitual de banho, café, roupa para o trabalho, beijo nos pais, carinho na Lunna e partida para a labuta, coloquei alguns clássicos "poperôs" para tocar no carro.

E então veio Sandra - **“(I'll Never Be) Maria Magdalena”.**




A música começou com aquele universo absolutamente anos 80: sintetizadores, bateria eletrônica, voz feminina, produção impecavelmente europeia...


Até que o ouvido fez:

**“Espera aí... tem uma guitarra aqui.”**


E tinha mesmo.


A gravação de *The Long Play*, álbum de estreia solo de Sandra, lançado em 1985, credita Markus Löhr nas guitarras, enquanto Michael Cretu ficou responsável pela produção, teclados, sintetizadores e bateria digital.

E então me veio à cabeça uma lembrança do segundo colegial, no Cerqueira César, quando uma amiga dizia algo que, na época, parecia apenas uma observação engraçada:


**“Até nas músicas da Xuxa tem guitarra.”**


Talvez ela estivesse enxergando uma coisa que demoramos anos para perceber.

A guitarra não precisava mais ser "música de rock".

Ela simplesmente havia se tornado **parte da linguagem da música popular**.

E essa história é muito mais antiga e muito mais brasileira do que parece.


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## Antes de ser símbolo do rock, a guitarra queria apenas ser ouvida


A guitarra elétrica surgiu de uma necessidade bastante prática.

Em grandes conjuntos e orquestras, principalmente no jazz, a guitarra acústica simplesmente não conseguia competir em volume com metais, baterias e outros instrumentos.

Era preciso amplificá-la.

A eletrificação abriu uma porta gigantesca. Durante as décadas de 1930 e 1940, músicos como Charlie Christian, T-Bone Walker, Sister Rosetta Tharpe e outros começaram a transformar a guitarra amplificada em instrumento melódico, capaz de tocar linhas que antes eram território de saxofones e trompetes.

E isso é importante.

Porque a guitarra elétrica **não nasceu para fazer rock**.

O rock veio depois.

A guitarra foi sendo descoberta pelo blues, jazz, country e rhythm & blues, até que, nos anos 1950 e 1960, tornou-se uma das grandes protagonistas da música popular.

Quando Chuck Berry colocou riffs de guitarra no centro do rock and roll, quando os bluesmen americanos começaram a explorar distorção e quando os Beatles, Stones, Who, Yardbirds e tantos outros fizeram dela uma espécie de bandeira sonora, estava criado o caminho que levaria ao hard rock, ao heavy metal, ao punk, ao grunge e a dezenas de outras ramificações.


Mas havia um detalhe interessante acontecendo do outro lado do Atlântico.


**O Brasil estava eletrificando a própria música.**

E muito antes de alguém sair marchando contra a guitarra.


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# O Brasil já tinha sua própria guitarra elétrica


Voltemos para Salvador.

Década de 1940.

Dodô e Osmar estavam procurando uma solução para amplificar instrumentos de cordas sem que a microfonia destruísse a apresentação.

A solução foi engenhosa.

Eles desenvolveram o chamado **pau elétrico**, um instrumento de corpo sólido que evoluiria posteriormente para aquilo que conhecemos como **guitarra baiana**.

A pesquisa de Dodô e Osmar desembocou, em 1950, na primeira saída do trio pelas ruas de Salvador, tocando frevos eletrificados sobre um Ford 1929.

E aqui existe uma dessas deliciosas ironias da história da música:

Enquanto a guitarra elétrica começava a conquistar espaço internacionalmente, dois músicos baianos estavam criando uma solução genuinamente brasileira para fazer um instrumento elétrico **caber no carnaval**.


Não era uma banda de rock.

Não era um festival de blues.

Era Carnaval.


E o resultado foi o nascimento do **Trio Elétrico**.


O nome originalmente designava o conjunto formado por Dodô, Osmar e Temístocles Aragão. Com o tempo, passou a designar também o gigantesco caminhão sonoro que hoje conhecemos.

A música brasileira acabava de descobrir que eletricidade também podia ser folia.


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# E então veio a Marcha contra a Guitarra Elétrica


Chegamos a 1967.

A guitarra já havia conquistado o rock internacional, a Jovem Guarda fazia enorme sucesso no Brasil e a discussão sobre identidade cultural estava fervendo.

Foi nesse ambiente que aconteceu um dos episódios mais curiosos da história da música brasileira.

Em **17 de julho de 1967**, artistas ligados à chamada Frente Única da MPB saíram em passeata pelas ruas de São Paulo.

Entre os nomes envolvidos estavam **Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil e Edu Lobo**.

O alvo simbólico?

A guitarra elétrica.

A manifestação ficou conhecida como **Marcha contra a Guitarra Elétrica**, ou Passeata da MPB. O argumento era que a guitarra representaria uma espécie de invasão estrangeira e uma ameaça à música brasileira.

Hoje, olhando para trás, parece quase surreal.

Imagine a cena:

Músicos brasileiros marchando pelas ruas para defender a música brasileira...

**contra um instrumento musical.**

É um daqueles momentos que parecem ter sido escritos por um roteirista com senso de humor histórico. Mas o contexto era sério. Havia uma discussão legítima sobre identidade cultural, influência estrangeira e o futuro da música brasileira.

O problema foi que a guitarra não estava muito interessada em participar do debate ideológico. Ela continuou tocando.


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# A resposta veio com guitarras


Poucos meses depois, em outubro de 1967, aconteceu o III Festival da TV Record. E ali a história resolveu dar uma bela pirueta.

Caetano Veloso apresentou **“Alegria, Alegria”** acompanhado pelos Beat Boys, grupo argentino de rock.

Gilberto Gil apresentou **“Domingo no Parque”** acompanhado pelos Mutantes.

Guitarras elétricas estavam ali.

E aquilo ajudou a abrir caminho para o Tropicalismo, movimento que abraçaria justamente a mistura de elementos brasileiros e estrangeiros, em vez de tentar construir uma música brasileira protegida por uma cerca imaginária.

A guitarra que alguns queriam manter do lado de fora acabou entrando pela porta da frente. E não entrou sozinha. Trouxe rock, psicodelia, Beatles, Jimi Hendrix, música eletrônica, experimentação, distorção e uma boa dose de "vamos ver o que acontece se misturarmos tudo isso".

O Brasil não perdeu sua identidade.

**Aumentou o vocabulário.**


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# Armandinho: quando a guitarra elétrica virou Carnaval


E aqui voltamos à Bahia. Porque enquanto uma parte da música brasileira discutia se a guitarra era brasileira o suficiente, Dodô e Osmar já tinham colocado a eletricidade em cima de um carro e saído tocando frevo pelas ruas de Salvador.

Depois veio Armandinho. Filho de Osmar, cresceu dentro daquele universo e transformou a guitarra baiana em uma das vozes mais características do carnaval brasileiro.

O próprio Armandinho conta que, ainda jovem, pediu a Dodô que construísse para ele um instrumento nos moldes das guitarras que via nos Beatles. Mais tarde, passou a chamar aquele instrumento de **guitarra baiana** e, em 1983, desenhou uma versão de cinco cordas, a Guibai.

E existe algo particularmente bonito nessa trajetória. A guitarra elétrica, que para alguns representava a ameaça da música estrangeira, havia sido completamente **abrasileirada**.

Ela virou:

**pau elétrico.**

Depois:

**cavaco elétrico.**

Depois:

**guitarra baiana.**

E finalmente:

**a voz elétrica do Carnaval de Salvador.**


Não foi simplesmente uma guitarra estrangeira tocando música brasileira. Foi um instrumento reinventado dentro da própria cultura brasileira.


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# A guitarra também aprendeu a sambar


E não parou no carnaval.

Ao longo das décadas, a guitarra foi entrando em praticamente todos os cantos da música brasileira. Na Jovem Guarda, tornou-se símbolo da juventude.  Na Tropicália, tornou-se ferramenta de experimentação. Na MPB, passou a dialogar com harmonias sofisticadas. No samba-rock, ajudou a criar uma linguagem própria. Na música nordestina, encontrou caminhos diversos. Na música instrumental brasileira, aproximou-se do jazz e da fusão. E no rock brasileiro, obviamente, encontrou uma casa bastante confortável. Mas talvez o mais interessante seja perceber que ela não precisou necessariamente dominar a música.


Às vezes, bastava aparecer.

Um riff.

Uma base.

Um pequeno preenchimento.

Um solo de oito compassos.

Uma guitarra limpa tocando acordes.

Uma guitarra funky escondida no meio do arranjo.

Uma guitarra com chorus típica dos anos 80.

Uma guitarra distorcida surgindo por alguns segundos.

E pronto.

**Ela estava lá.**


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# E chegamos aos anos 80


Aqui começa a ficar particularmente divertido. Porque os anos 80 foram a época em que a guitarra e os sintetizadores fizeram uma espécie de casamento civil. E ninguém perguntou ao rock se ele autorizava. 

Pop, new wave, synth-pop, disco, AOR, dance music e trilhas de cinema começaram a utilizar uma gigantesca variedade de timbres.

A guitarra podia estar completamente limpa. Podia ter chorus. Delay. Reverb. Flanger. Podia soar quase como um sintetizador. Ou podia aparecer rasgando a música. E, no meio disso tudo, estava Sandra.


**“(I'll Never Be) Maria Magdalena”** é oficialmente synth-pop/europop, mas o álbum *The Long Play* credita Markus Löhr nas guitarras.


E nas versões mais longas da música, a guitarra fica ainda mais evidente, inclusive com uma passagem instrumental destacada.

Ou seja:

Aquela música que muita gente colocaria na categoria mental de **“pop eletrônico dos anos 80”** também tem um guitarrista trabalhando dentro da máquina.

E talvez seja exatamente isso que minha amiga do colegial estivesse percebendo.


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# “Até a Xuxa tem guitarra!”

A frase parece engraçada. Mas existe uma verdade musical escondida nela.

Quando um instrumento se torna suficientemente importante, ele deixa de pertencer exclusivamente ao gênero que ajudou a popularizar.

O piano não é "instrumento de música clássica".

A bateria não é "instrumento de rock".

O baixo não pertence ao funk.

E a guitarra definitivamente não pertence apenas ao rock.


Ela pode ser pop.

Pode ser disco.

Pode ser funk.

Pode ser reggae.

Pode ser country.

Pode ser jazz.

Pode ser blues.

Pode ser soul.

Pode ser ska.

Pode ser MPB.

Pode ser sertanejo.

Pode ser metal.

Pode ser música eletrônica.


Pode até ficar tão escondida na produção que você só percebe quando resolve prestar atenção.

E é justamente aí que mora a graça.


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# Do blues ao metal, passando por praticamente tudo


A guitarra elétrica desenvolveu uma capacidade quase camaleônica. No jazz, aprendeu a falar baixo. No blues, aprendeu a chorar. No rock and roll, aprendeu a fazer riffs. No funk, aprendeu a cortar o silêncio em pequenos golpes rítmicos. No reggae, aprendeu a trabalhar no contratempo. Na disco, virou parte da engrenagem rítmica. No country, ganhou twang. No surf rock, virou paisagem. Na new wave, ganhou efeitos. No pop, tornou-se textura. No punk, aprendeu a ser rápida e direta. No grunge, ficou pesada e suja. No heavy metal, transformou-se em arquitetura. No thrash, virou uma metralhadora de riffs. No death metal, começou a trabalhar em velocidades que fariam um guitarrista de 1950 procurar o médico.
E no metal extremo, bom...


A guitarra aparentemente decidiu que quatro acordes já eram uma provocação pessoal. 🤘

A literatura sobre o instrumento deixa clara essa expansão: a guitarra elétrica passou a ocupar papéis de acompanhamento e solo e tornou-se central em estilos tão diferentes quanto blues, jazz, country, pop, funk, reggae, punk e metal.


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# A verdadeira vitória da guitarra


Talvez a maior vitória da guitarra elétrica não tenha sido derrotar o piano. Nem o saxofone. Nem o sintetizador. Nem mesmo os músicos que marcharam contra ela.

Sua verdadeira vitória foi algo muito mais simples:


**ela deixou de precisar pedir licença.**


Hoje ninguém estranha ouvir uma guitarra em uma música pop. Ninguém pergunta se determinada canção "pode" ter guitarra. Ninguém precisa justificar sua presença.


Ela simplesmente está ali.


Às vezes berrando. Às vezes chorando. Às vezes fazendo apenas três acordes no fundo. Às vezes fazendo um riff que vira a identidade inteira da música. E às vezes escondida em uma música da Sandra enquanto você está indo trabalhar e, de repente, seu cérebro interrompe o café imaginário da manhã para anunciar:


**“ATENÇÃO! DETECTADA GUITARRA!”** 🎸😂


E talvez seja por isso que aquela lembrança da minha amiga do segundo colegial tenha voltado tantos anos depois.

Ela tinha percebido uma coisa muito simples:


**a guitarra já estava em todo lugar.**


Muito antes de chegar ao seu amplificador, ela já havia conquistado a música. Muito antes de virar símbolo do rock, ela já estava procurando novos lugares para existir. E quando alguém tentou expulsá-la da música brasileira...


Ela respondeu da maneira mais eficiente possível.

**Continuou tocando.**


No palco. No rádio. Na MPB. No Carnaval. Na Tropicália. No pop. Na Xuxa. Na Sandra. E, obviamente...


**no Metal.** 🤘🔥


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### Uma última provocação


Então, da próxima vez que você ouvir uma música pop antiga, não escute apenas a melodia.


Procure o fundo.

Procure o riff.

Procure aquele acorde escondido.

Procure o pequeno fraseado que aparece por dois segundos.


Porque talvez aquela música que você jurava ser apenas "poperô" esteja carregando, discretamente, uma guitarra nas costas.


E se você encontrar...Não se assuste. Ela provavelmente está ali há quarenta anos. Só estava esperando você prestar atenção.


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**Eddie Blaze, em parceria com Lúmen, a cronista da rádi**

*Metal World Web Radio*

**6.66 MHz • Set The World On Fire** 🔥🎸


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