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# FORA DO SOM ## O Rock é de esquerda? Ou simplesmente é contra quem está mandando?

O rock nasceu carregando uma certa vocação para atravessar fronteiras. Fronteiras musicais, comportamentais, sociais e, em muitos momentos, políticas. Foi acusado de ser barulhento, imoral, subversivo, perigoso. Seus artistas frequentemente desafiaram autoridades, costumes, instituições e aquilo que determinada época considerava aceitável.

# FORA DO SOM ## O Rock é de esquerda? Ou simplesmente é contra quem está mandando?
# FORA DO SOM ## O Rock é de esquerda? Ou simplesmente é contra quem está mandando? (Foto: Reprodução)


## O Rock é de esquerda? Ou simplesmente é contra quem está mandando?


**Por Lúmen**


Há uma frase que volta e meia reaparece nas redes sociais, em entrevistas, discussões entre músicos e, principalmente, nas intermináveis batalhas políticas da internet:


“Rock é de esquerda.”


É uma afirmação curta. Talvez curta demais.

Porque basta olhar um pouco para a história do rock para perceber que existe alguma coisa anterior à esquerda e à direita: a disposição de incomodar.

O rock nasceu carregando uma certa vocação para atravessar fronteiras. Fronteiras musicais, comportamentais, sociais e, em muitos momentos, políticas. Foi acusado de ser barulhento, imoral, subversivo, perigoso. Seus artistas frequentemente desafiaram autoridades, costumes, instituições e aquilo que determinada época considerava aceitável.

Mas existe uma diferença importante entre ser contestador e pertencer a uma corrente política específica.

E talvez seja justamente aí que a discussão fique interessante.


### O rock precisa escolher um lado?


Roger Moreira, vocalista do Ultraje a Rigor, já resumiu a postura de sua banda com uma expressão bastante simples:

“Sempre fomos do contra.”


A declaração apareceu em uma entrevista ao UOL em 2015, quando Roger comentava o lançamento de um álbum instrumental justamente em um período de intensa turbulência política brasileira. Na mesma entrevista, ele dizia não se considerar de direita, embora defendesse posições como a iniciativa privada e se declarasse contrário ao comunismo.

Anos depois, sua posição política tornou-se ainda mais explicitamente crítica à esquerda.

Independentemente de concordarmos ou não com Roger, existe uma pergunta interessante escondida aí:

Se o rock é “do contra”, ele precisa ser contra a direita?

E, se amanhã o governo for de direita, o roqueiro que continua sendo “do contra” deveria mudar automaticamente de lado?

A resposta parece óbvia quando colocamos dessa maneira.

O alvo da contestação pode mudar.

A atitude de contestar, não necessariamente.


### Quando a esquerda estava no palco


Mas seria igualmente errado contar essa história como se a tradição política do rock brasileiro tivesse sido exclusivamente conservadora.

Ela definitivamente não foi.

O punk brasileiro, por exemplo, desenvolveu uma forte tradição de crítica social e política. O Ratos de Porão construiu parte importante de sua identidade justamente sobre esse terreno.

E há inúmeros exemplos de músicos que assumiram posições políticas à esquerda ou de centro-esquerda.

Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, por exemplo, já se definiu publicamente como de centro-esquerda. Em diferentes momentos, utilizou o palco para fazer críticas políticas e, ao mesmo tempo, criticou governos e políticos de diferentes correntes. Em 2017, ao falar sobre “Que País É Este?”, afirmou que a música poderia ser dedicada a políticos de esquerda, centro e direita.

Em 2026, durante o Rock in Rio, Dinho voltou a utilizar a música como manifestação política e a direcionou a figuras e políticos de diferentes campos.

Isso é importante.

Porque demonstra que contestação e alinhamento partidário não são necessariamente a mesma coisa.


### O rock pode discordar de todo mundo


Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes da cultura rock.

Dinho pode fazer uma crítica à direita.

Roger pode fazer uma crítica à esquerda.

Outro músico pode não gostar de nenhum dos dois.

Outro pode não querer falar de política.

Outro pode ser anarquista.

Outro pode ser liberal.

Outro pode ser socialista.

Outro pode ser conservador.

Outro pode simplesmente estar preocupado em saber se o amplificador vai funcionar no próximo show.

E todos continuam fazendo rock.


A história mostra, inclusive, que divergências políticas podem atravessar as próprias bandas. Em diferentes momentos, integrantes de grupos brasileiros já manifestaram posições políticas distintas entre si.

Isso deveria ser perfeitamente normal.


### A política não precisa ser dona da música


Talvez um dos maiores problemas da discussão atual seja a necessidade de transformar tudo em identidade política.

O músico fala sobre política?

“É rock de esquerda.”

O músico critica a esquerda?

“É rock de direita.”

O músico critica os dois lados?

“Não sabe de que lado está.”

O músico não fala de política?

“Está se omitindo.”

E assim vamos criando pequenas fronteiras imaginárias dentro de um gênero musical que passou décadas justamente derrubando fronteiras.


### E aqui entra a Metal World


Existe uma diferença que considero fundamental.

A Metal World Web Radio não tem lado político.

Não é uma rádio de esquerda.

Não é uma rádio de direita.

Não é uma rádio de centro.

Não é uma rádio de situação.

Não é uma rádio de oposição.

É uma rádio de rock e metal.


Quem acompanha a Metal World pode encontrar músicas, programas, personagens, histórias, humor, descobertas musicais e opiniões culturais. Pode encontrar artistas que pensam de maneiras completamente diferentes.

E isso é proposital.

Porque uma rádio não precisa transformar a opinião política de seu criador em regra para seus ouvintes.

O Eduardo, pessoa física, tem suas posições políticas.

A Metal World, como projeto musical e cultural, não.

Essa separação é importante.

E talvez seja justamente uma das coisas que tornam possível colocar no mesmo espaço artistas que jamais concordariam entre si.


### Porque já vimos o que acontece quando tudo precisa ter um lado


Há uma ironia particularmente curiosa nisso.

Em determinado momento, já aconteceu comigo de ser excluído de um grupo que se apresentava como ligado ao universo “underground” justamente porque manifestei uma posição política contrária à esquerda.

A situação é curiosa.

Porque o underground nasceu, em grande parte, como espaço de liberdade, contestação e independência.

Mas, de repente, alguém pode dizer:


“Você pensa diferente de mim. Portanto, você não pertence ao underground.”


E aí existe uma pergunta que vale mais do que a discussão política em si:


Que tipo de underground precisa de autorização ideológica para admitir quem pode participar dele?


Talvez seja justamente aí que a palavra “underground” perca um pouco de seu significado.


### O rock não pertence a ninguém


O rock pode ser utilizado como ferramenta de protesto por alguém de esquerda.

Pode ser utilizado como ferramenta de protesto por alguém de direita.

Pode ser utilizado por alguém que não acredita em nenhum dos dois lados.

Pode simplesmente ser utilizado para fazer música.

O gênero não exige filiação partidária.

E talvez nem devesse.

Porque quando alguém diz que determinado gênero musical pertence a uma ideologia, surge imediatamente uma pergunta:


Quem concedeu essa propriedade?


Quem decidiu que uma guitarra distorcida, uma bateria pesada e um vocal rasgado pertencem a uma determinada corrente política?


Ninguém.


O rock pertence aos músicos que o fazem e às pessoas que o escutam.


### E chegamos às eleições


Estamos novamente diante de uma eleição brasileira.

Em 4 de outubro de 2026, os brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Caso haja segundo turno para os cargos correspondentes, ele ocorrerá em 25 de outubro.

Nesse período, inevitavelmente, artistas vão se posicionar.

Alguns apoiarão candidatos.

Alguns criticarão candidatos.

Alguns defenderão determinadas ideias.

Alguns atacarão ideias completamente diferentes.

E alguns simplesmente continuarão tocando.

Tudo isso faz parte da liberdade de expressão.

Mas talvez o público também possa preservar outra liberdade:


a liberdade de ouvir um artista sem precisar transformar cada acorde em declaração partidária.


### E talvez o rock seja simplesmente inconveniente


Talvez essa seja a parte que mais incomoda.

O rock não precisa ser de esquerda.

Também não precisa ser de direita.

Ele pode ser contra.


Contra o que estiver sendo considerado intocável.


E isso pode significar coisas completamente diferentes para pessoas diferentes.

Para alguém, o sistema será o governo.

Para outro, será uma instituição.

Para outro, uma empresa.

Para outro, uma gravadora.

Para outro, uma ideologia.

Para outro, uma tradição.

Para outro, simplesmente a pessoa que decidiu que guitarra distorcida é “barulho”.


E talvez seja justamente por isso que o rock continue vivo.

Porque, quando tentamos transformá-lo em propriedade de uma corrente política, ele fica menor.

Muito menor.

O rock é grande demais para caber em uma urna eletrônica.


### Fora do Som


No fim das contas, talvez a melhor definição não seja:


“Rock é de esquerda.”


Nem:


“Rock é de direita.”


Talvez seja:


“Rock é livre para discordar.”


E essa liberdade também vale para quem está atrás do microfone.


Vale para Roger.

Vale para Dinho.

Vale para João Gordo.

Vale para Lobão.

Vale para qualquer músico.

E vale para quem está ouvindo.

A Metal World não precisa escolher um lado político para defender o direito de seus ouvintes escolherem o próprio.


A Metal World não tem lado político.

Eduardo tem.


E essa diferença não é uma contradição.

É justamente a separação entre uma pessoa que possui opiniões políticas e uma rádio que existe para colocar música no ar, descobrir artistas, provocar conversas e, vez ou outra, fazer alguém pensar.

Porque talvez o verdadeiro espírito do rock não seja dizer ao público  em que acreditar.

Talvez seja dar ao público liberdade suficiente para dizer:


“Eu discordo.”


E continuar ouvindo.

Porque democracia também é isso.

Discordar sem precisar desligar o amplificador.


Lúmen

Cronista da Metal World Web Radio


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