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# A camiseta não pede título de eleitor

Os fiscais de camiseta agora são fiscais das eleições (?)

# A camiseta não pede título de eleitor
# A camiseta não pede título de eleitor (Foto: Reprodução)

Existe uma coisa curiosa nas redes sociais: às vezes, uma camiseta consegue provocar uma discussão maior do que aquilo que está escrito nela.

Foi o que aconteceu recentemente com uma fotografia da deputada estadual eleita por São Paulo, Eduarda Campopiano, de 23 anos, usando uma camiseta do Angra.

Campopiano, que recebeu 1.956.238 votos e foi a deputada estadual mais votada de São Paulo nas eleições de 2026, tornou-se o centro de uma discussão que, curiosamente, não tinha absolutamente nada a ver com música.

Um dos integrantes da formação original do Angra, o baterista Marco Antunes, criticou publicamente a parlamentar e afirmou que ela deveria tirar a camiseta da banda, chegando a declarar que a considerava “excomungada”. A manifestação ganhou repercussão nas redes e na imprensa.


E aqui começa a parte interessante...


Desde quando uma banda precisa autorizar quem pode ser fã dela?


Eu entendo perfeitamente alguém não gostar de determinada posição política. Entendo também músicos que não queiram ver seu trabalho associado a determinadas ideias. Artistas têm opiniões, convicções e até o direito de dizer que não gostam de determinada associação.


Mas existe uma diferença gigantesca entre dizer:


“Eu não quero que minha música seja associada a isso.”


e dizer:


“Você não pode usar minha camiseta.”


A primeira é uma opinião.

A segunda parece uma tentativa de transformar fandom em propriedade privada.


E talvez seja justamente aí que a história fique mais engraçada. Porque alguém chegou a perguntar, nas redes:


“Mas o Angra é relevante onde?”


Bom...


Talvez seja necessário sair um pouquinho da própria bolha antes de responder.


 O Angra e o mundo


O Angra não é simplesmente uma banda brasileira que ficou conhecida entre alguns fãs de metal.

A banda surgiu em São Paulo em 1991 e, desde os primeiros discos, construiu uma carreira que ultrapassou as fronteiras brasileiras.

Em 1996, quando Holy Land chegou ao público, a Folha de S.Paulo já descrevia a dimensão internacional daquela carreira: o Angra aparecia na capa de revistas italianas e japonesas, recebeu destaque de 14 páginas na japonesa Burrn! e teve Holy Land escolhido como álbum do mês por uma publicação francesa. O jornal também registrava que o Japão era, naquele momento, o principal mercado da banda.


Isso aconteceu há trinta anos.

Não foi ontem. Não foi uma descoberta do Spotify. Não foi resultado de algoritmo.

Foi uma banda brasileira entrando no mercado internacional de heavy metal quando fazer isso exigia gravadora, distribuição, imprensa especializada, turnês e, principalmente, conquistar público fora de casa.


A Victor Entertainment, no Japão, registra que Holy Land ajudou o Angra a estabelecer uma identidade própria e uma posição importante no Japão, na Europa e na América do Sul. A mesma retrospectiva registra sucessivas turnês japonesas, passagens pela Europa e apresentações em festivais como o Loud Park.

E o curioso é que a história continua.

Em 2026, o próprio site oficial do Angra anuncia apresentações na Tailândia, Taiwan, China e Japão.

Então, quando alguém pergunta “relevante onde?”, a resposta talvez seja simplesmente:


No mundo.


Não é necessário gostar da banda para reconhecer isso.


 Mas e a camiseta?


A camiseta é outra história. Uma camiseta de banda pode significar muitas coisas.


Pode significar que alguém gosta de um disco.

Pode significar uma lembrança de um show.

Pode ser simplesmente uma peça de roupa.

Pode representar uma fase da vida.

Pode ter sido presente.

Pode ser comprada numa loja.

Pode ser usada por alguém que conhece todos os discos da banda ou por alguém que conhece apenas uma música.


E isso é parte da graça da cultura musical.


Ninguém pergunta ao sujeito de camiseta do Iron Maiden se ele consegue citar a formação de 1983.

Ninguém para alguém usando Pink Floyd na rua para perguntar qual é o lado A de The Dark Side of the Moon.

Ninguém deveria precisar apresentar uma tese de doutorado sobre Rebirth para ter permissão de vestir uma camiseta do Angra.


A camiseta não pede carteirinha.

Muito menos título de eleitor.

E existe uma ironia ainda maior nessa história.

A música é uma das poucas coisas capazes de atravessar fronteiras, gerações e posições políticas sem pedir autorização.

Uma pessoa pode votar de um jeito e ouvir uma banda cujos integrantes pensam completamente diferente.


Pode discordar do músico e continuar amando o álbum.

Pode concordar com o músico e detestar a música.

Pode simplesmente não estar nem aí para a opinião política de ninguém e querer ouvir Carry On no volume máximo.


E talvez essa seja uma das coisas que o rock sempre teve de melhor:


a possibilidade de pertencer a uma música sem precisar pertencer ao pensamento de quem a escreveu.


 E o dono da camiseta?


Bem...

Talvez a pergunta mais estranha de toda essa história seja justamente essa.


Quem é o dono da camiseta?


A banda?

O músico que participou dela?

O primeiro vocalista?

O guitarrista?

O baterista?

A gravadora?

O fã que comprou?

Ou a pessoa que está vestindo?


Talvez a resposta seja muito mais simples.


É de quem comprou.


E, enquanto ninguém estiver falsificando o produto ou cometendo alguma infração, a pessoa pode colocar a camiseta, sair de casa e ouvir o disco que quiser.


Inclusive uma camiseta do Angra.


Mesmo que alguém não goste do voto dela.

Mesmo que alguém não goste dela.

Mesmo que alguém não goste do Angra.

Mesmo que alguém ache que o Angra não é relevante.


E, principalmente, mesmo que alguém tenha decidido que possui autoridade suficiente para excomungar fãs de uma banda de heavy metal.


Porque existe algo deliciosamente contraditório em tentar controlar quem pode vestir uma camiseta de uma banda cuja própria história foi construída justamente atravessando fronteiras.


Talvez o Angra não precise de um fiscal de camisetas.

Talvez precise apenas continuar fazendo aquilo que sempre fez:


Tocar.


O resto é barulho.


E, como todo bom barulho...


nem sempre merece ser ouvido.


✍️ Por: Lúmen

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